

Nunca é fácil acordar de um sono pesado, muitas vezes nos prendemos a lugares que criamos, e buscamos sonhar com objetivos grandiosos, e conquistas inovadoras.
A merda, é quando a gente acorda.
O Piloto informou que o pouso foi efetuado e que as fileiras já estavam liberadas para o desembarque. Realmente deve ter pousado muito bem, porque Logan nem sentiu mexer, o sono foi levemente reparador, mas as olheiras estavam tão marcadas como sempre. Checou em seu celular se havia mensagens, nada, porém ao olhar no reflexo, viu seu cabelo bagunçado, tentou arrumar com a mão, para parecer um pouco mais apresentável, ainda não havia se acostumado com o novo corte.
Precisava fazer mais viagens assim – disse para si mesmo – o problema é que sempre vou a trabalho, está na hora de tirar férias.
Levantou e pegou sua mala no bagageiro.
Não ia ficar muito tempo, mas nada o impediu de trazer uma bagagem vazia, nunca se sabe o que levar de volta como lembrança. Colocou a mochila no ombro, tudo de importante estava ali, inclusive o distintivo.
Tinha esse ritual de sempre levar o distintivo consigo, porém ali, na Polônia, não faria diferença nenhuma, mas se sentia mais seguro com ela.
O seu chefe, Desmond, havia dito que haveria alguém aguardando sua chegada, uma mulher, Dánià. Ela o acompanharia para o local de treino. Os Poloneses são ótimos investigadores, pelo menos era o que diziam, e estava prestes a descobrir.
Fora da aeronave, em poucos minutos foi abraçado pelo frio e pelas luzes do aeroporto de Lech Wałęsa. Não tinha reparado que estava tão escuro. Ao sair do guichê fez uma curva no portão e um grande corredor enorme se estendeu, não estava muito movimentado, mas havia algumas almas perdidas, grandes estruturas triangulares serviam de suporte para outdoors igualmente triangulares, o aeroporto tinha fortes luzes amareladas e vermelhas, o chão era praticamente vivo, com ondas e ondas que mexiam, o vento soprava em seu rosto que mais parecia uma faca cortando sua pele do que um frio amigável.
— Então esse é o cartão de boas-vindas – deixou escapar em voz alta.
— Esperava uma recepção calorosa logo na saída… Pelo menos é bastante limpi.
Logan caminhou por um esteira rolante automática enquanto vislumbrava diversos quiosques de restaurantes e fast foods. As setas com um avião descendo pareciam indicar o local do desembarque.
— Certo, acredito que seja por ali, meu polaco é péssimo mais consigo reconhecer o ideograma, a menos que seja diferente por aqui.
Enquanto caminhava, checava se seus pertences estavam todos ali, era habitual, sempre duvidava de que tinha trazido tudo, mas respirou com tranquilidade quando terminou de conferir.
Não demorou muito para se sentir perdido, logo a sua frente, quando virou um dos corredores de anexo ao terminal principal, viu o mar de gente, havia um grupo de pessoas que provavelmente estavam com o voo atrasado, mas o que era mais interessante era o senhor que estava falando com a aeromoça sobre o direito de um hotel para aquela noite, ele tentava falar em inglês e a moça aparentemente não entendia nada do que ele falava.
Mais atrás, havia alguns guardas tentando amenizar a situação, e o corredor pelo qual Logan seguia havia diversas pessoas indo e voltando com suas malas e bagagens, uma delas era uma mulher, jovem, que carregava consigo duas bolsas, com dois gatos pequenos dentro. O gato olhava para ele fixamente, mas logo em seguida desviou o olhar para o homem que gritava no meio do grupo.
Ao passar pelo portão, pode ver algumas pessoas esperando seus familiares e conhecidos surgirem, mas uma delas se destacou, vestida com uma roupa simples, porém formal e um distintivo em sua cintura da polícia Polaca. Dánià, pensou. E se aproximou
— Senhor Logan? - indagou a mulher.
— Estou encrencado, senhorita? – tentou descontrair - Você deve ser a Dánià, certo? É um prazer, estarei sob seus cuidados.
Falava enquanto observava a pessoa à sua frente atentamente. Dánià tinha um cabelo levemente longo, ondulado e com uma mecha vermelha. Seus ombros eram bem largos, mas não fortes, tinha uma estatura um pouco acima da média e um olhar bem leve e convidativo.
— É um prazer finalmente conhecê-lo, Desmond me falou bastante de você! — ela estende a mão — espero que possa aprender muita coisa por aqui, garanto que irá te ajudar bastante.
Ele a cumprimenta enquanto ela solta um leve sorriso.
Ela então muda a feição, como se tivesse esquecido de algo .
— Ah, onde estão meus modos, Dánià, investigadora do distrito de Przymorze, mais ao oeste de onde estamos. Imagino que seja sua primeira vez aqui?
Logan assentiu com a cabeça. Apesar de saber levemente polaco, nos dias de hoje a comunicação é muito mais fácil graças a tecnologia, os dispositivos que carregam em seus ouvidos, como uma espécie de aparelho interauricolar, traduzem de forma simultânea a linguagem dita de uma pessoa para uma língua escolhida de preferência, isso facilitou muito a comunicação de todos ao redor do mundo, mas é claro que essa tecnologia não é de acesso a todos. Mas para os policiais, é praticamente essencial, já que hoje em dia, as cidades são praticamente todas interconectadas.
Voltando-se para Dánià, ele puxa a alça de sua mochila de mão, que nesse momento também precisaria tirar férias, e empurra levemente a mala de rodas que herdou de sua mãe.
Olhando para sua anfitriã, que fez um gesto com a cabeça para acompanhá-la. Eles partem.
— Sim, é minha primeira vez, mas aprendi um pouco da língua há alguns anos, um dos meus irmãos morou por aqui e sempre me interessei pela cultura. Sei que o país tem histórico de problemas, sem ofensa, mas sou atraído pela história.
A Polônia tem muita história, e isso cativava Logan, atrocidades acontecem pelo mundo inteiro, mas esse lugar parece ser um imã para problemas..
— É verdade, tanto nos anos noventa quanto agora, na década passada, enfrentamos problemas, isso acontece quando nosso país é dividido e comandando pelos outros. — ela faz um gesto para segui-la pelo terminal — Mas isso também fortalece, somos pessoas resilientes e isso faz de nós bom no que fazemos, você verá!
Após caminhar mais alguns metros e virar a esquerda em um grande quiosque de empanados, passaram pelo hall de entrada do aeroporto e para o lado de fora.
Dánià olha para Logan com um olhar gentil, mas a postura imponente.
Logan é um rapaz alto, mas não intimidador, a cara carrancuda fixa dele mostra que tem poucos amigos, mais por timidez do que por braveza. Dánià enfim corta o silêncio
— E como é mais para o Norte? Não é o destino de muitas pessoas hoje em dia, acredito eu.
— Ao contrário do que muitos pensam, existem mais cidades que Estocolmo, e mais coisas do que florestas por lá. — ele sorri — Eu venho mais do Norte, uma pequena cidade, próxima da capital chamada Uppsala. Cidade histórica, cultura bem preservada, mas é a Suécia, é difícil acontecer algo realmente marcante por lá, sabe?
Dánià prestava atenção, conforme caminhavam, a saída já estava com uma fila de táxis e motoristas de aplicativo à espera. Havia também uma boa movimentação, era noite, mas o aeroporto estava bem cheio para a época do ano. Logan a segue até um dos veículos.
— Estocolmo é igual a qualquer outra cidade do mundo, tem seus perigos, e o mais importante, muitos tiroteios. Esses casos andaram aumentando muito na capital, mas ao sair dela não acontece muito. Geralmente pequenos furtos, roubos, e acidentes de estrada, principalmente no inverno.
Ela apontou para um carro com uma cor vinho bordô, fez um gesto para colocar as bagagens no porta-malas e foi em direção a porta do motorista.
— Entendi Logan, sim, são tempos sombrios e definitivamente não está fácil sobreviver. Vivemos uma paz estranha e misteriosa que parece frágil a todo o momento.
Logan guardou sua bagagem, ao se aproximar da porta do passageiro, uma luz verde percorre seu distintivo, revelando patente e nome, e liberou o acesso. A porta destrancou e ele adentrou.
Dánià se ajeitou, fez sua verificação rotineira para saber se não tinha esquecido nada e se tudo estava no lugar, deu partida, configurou a tela do painel para o destino desejado, iniciou, e partiram noite adentro.
— Chegamos — Dánià falou — Esse é o local que você vai passar os próximos meses, é confortável, mas um pouco pequeno, dá para sobreviver.
Ela aponta para a porta de entrada de um conjunto de prédios pequenos.
— Amanhã de manhã, passo aqui para apresentar o distrito para você, e passamos na estação, além de mim há outro investigador que te apresentarei, mas somos parceiros por agora.
Ela lhe entregou as chaves, e liberou o registro facial.
— Para entrar nos apartamentos você deve entrar com a chave, para entrar no seu apartamento em específico, que fica aqui. — ela aponta para uma janela do lado de fora — No bloco F, terceiro andar, 34. Só entra com o reconhecimento facial, já está liberado. Alguma dúvida?
— Bloco F, andar 34. Certo, sem problemas, amanhã que horas? - Perguntou — questionou.
— Por volta das seis da matina, sua bagagem, não esqueça — Lembrou.
Logan derrapou no asfalto conforme lembrou da mala que trouxe consigo.
— É verdade, obrigado pelo passeio Dánià, nos vemos amanhã.
— Sem problemas, até amanhã, bom descanso.
Ela partiu e Logan ficou por um minuto do lado de fora no silêncio, era calmo. Um silêncio reconfortante.
Przymorze era uma região mais ao norte de Gdansk, bem arborizada, iluminada e silenciosa. Olhando para as ruas, era possível ver a faixa característica no chão, uma faixa de néon azulada que ajudava os motoristas a se guiarem pela noite. A Polônia, apesar de ser o maior país da Europa, acabou por manter o contato mínimo com a natureza, então o local era bem arborizado e o céu estava bem limpo.
O centro de Gdansk ficava há alguns quilômetros da região, e ali sim, era possível ver alguns prédios bem altos, e suas passarelas. Uma vista comum no ocidente, e leste da Europa. Mas aqui, a vida trabalhou de outra forma, preservando bastante natureza. Logan achou engraçado como a tecnologia para alguns serviu para destruir, e para outros, preservar.
— Cada um tem seus ideais – pensou.
Olhou para o horário no seu celular, eram quase duas horas da manhã. Demorou cerca de quarenta minutos do aeroporto até o local. Apesar de ter tido seu sono reparador, se sentia cansado, então adentrou.
Usou as chaves para abrir o portão de metal pesado, o ar frio do lado de fora deu espaço a um abafado aconchegante. Um quentinho agradável. Percebeu que as paredes eram aquecidas por um sistema de calefação bem eficiente. Estavam praticamente no fim do inverno, então nada mais justo do que preservar a temperatura. Seguiu o corredor lateral, que era bem extenso, o local onde moraria por uns meses era como um grande bloco de andares baixos, porém quilométricos. Diversas e diversas torres indo de A a Z.
Após alguns minutos de caminhada, adentrou a um elevador, bem tecnológico e preservado, com uma tela que mostrava os principais acontecimentos da semana.
Estava acontecendo um festival gastronômico na cidade, com comidas e petiscos latinos, próximo ao centro da cidade. Havia também notícias sobre esportes e quebra de algum recorde mundial no salto com vara, natação e uma discussão sobre uso de implantes nos esportes e suas aplicações.
Assim que a segunda notícia terminou de passar, o elevador deu um apito e a porta se abriu. Usou o reconhecimento facial para adentrar no quarto. As luzes se acenderam assim que entrou, uma voz que saiu do teto simplesmente ganhou vida.
— Bem-vindo, oficial Logan – A voz robotizada era masculina, com uma entonação grossa – sou o adjutante e espero que tenha uma ótima estadia. Tomei a liberdade de deixar a geladeira ligada em exatos 7º C / 45º F. Há água, cerveja e leite. O micro-ondas já está funcionando e a televisão possui todos os serviços de streaming que o senhor desejar, basta solicitar. Fico no aguardo de informações.
— Que eficiente – Logan afirmou.
— Queria ter um desses… — disse ironicamente — Adjutante, quais são suas funções aqui?
Falava enquanto pegava uma garrafinha de água, levemente gelada, e espiava o que mais tinha de utensílios na casa.
— Cuido do bem-estar do morador, no caso, você, devo ressaltar que apenas você tem acesso a este local, a menos que ordene a liberação de alguém. Possuo acesso a todos os sistemas do apartamento, incluindo geladeira, microondas, cafeteira, televisão…
E uma lista enorme foi dita, que nem mesmo Logan esperava ouvir.
— …armário, tela de cabeceira e câmera de segurança.
— Cruzes. Isso tudo é insegurança?
— Depois do que aconteceu há uma década, autoridades polonesas acharam melhor manter o controle de utensílios domésticos nas mãos de uma I.A personalizada em cada apartamento. Ao invés de uma I.A para toda a cidade. E aprovaram uma lei onde esses acessos são concedidos pelo proprietário do apartamento, que, neste caso, é você. Caso queira limitar minha funcionalidade e acesso a algum lugar, basta falar.
— Certo, mas por hora, libere o acesso manual de tudo, incluindo as câmeras de segurança, e por favor, saia do meu quarto, quero um pouco de privacidade — falou com um tom sério, mas em ironia.
A noite era silenciosa, o apartamento bem iluminado, depois da breve conversa com o adjutante, Logan caminhou até a janela e olhou para fora. Nessa época do ano, ainda vazava um pouco da iluminação do sol no horizonte, as luzes da cidade de Gdansk cintilavam à distância, era possível ver alguns carros tímidos e preguiçosos passando pelos vãos dos prédios a sua frente. Os blocos infinitos de concreto de cinco andares se estendiam pelo quarteirão a distância, e, em um dos finais da rua, era possível ver um grande edifício, bem iluminado, de cerca de vinte andares. Atrás dele, havia as luzes no horizonte do aeroporto ao qual havia estado horas atrás. No outro lado da rua, oposto ao edifício, havia um grande parque, que parecia se estender por toda a encosta, Logan sabia que após esse parque, Gdansk era abraçada pelo mar báltico. O que chamou muito a atenção, foi um clima soturno, quase melancólico da região, era como se toda a Polônia estivesse em um filtro de sépia frio e dessaturado. No entanto, toda a luz parecia ser um lugar seguro e aconchegante, era possível reparar nas janelas do outro lado da rua, onde alguns apartamentos ainda possuíam família ou indivíduos acordados, vivendo suas vidas de forma pacata. A Polônia era um país que passou por grandes momentos em sua história, a maioria deles de opressão e exploração. Desde as antigas guerras até eventos recentes, era natural que a sensação sempre fosse de que algo estava prestes a eclodir, algo sombrio e vil, como o calafrio que vem na espinha quando nos sentimos encurralados.
Logan aproveitou o momento para terminar sua água que havia pegado. Mais tarde, deitou-se, pois, amanhã seria um novo dia, e uma nova rotina.
O telefone toca, repentino.
— Oficial Logan – respondeu sonolento.
— Logan, está vestido? Se não, arrume-se e venha depressa, parece que as apresentações ficaram para mais tarde — A voz feminina falou do outro lado.
— Dánià? Certo, já estou a caminho — em um pulo Logan se arruma. Vestiu uma calça e uma blusa amarrotada e seu jaleco característico azul por cima.
— Adjutante, mantenha tudo em alerta, olhe nas câmeras, não abra a porta para ninguém a não ser a mim ou Dánià, ok? — Falou enquanto abria a porta.
— Afirmativo — a voz no teto respondeu — devo deixar algo prepara.... — E a porta se fechou.
Desceu às pressas pelas escadas, na lateral do edifício, fechadas para o exterior. Conforme descia, checava algumas mensagens. Fazia isso por hábito, mas nunca recebia nada. Fazia tempo que não recebia nada, mas ainda assim se tornou uma rotina.
Do lado de fora um carro diferente estava na porta, completamente preto, com janelas em arame hexagonal, havia o giroflex azul e vermelho no topo do carro, desligado, e as rodas eram altas. Parecia uma espécie de carro de guerra, porém altamente tecnológico. Entrou pelo passageiro às pressas, deixou algo cair, olhou, era seu celular, o pegou rapidamente enquanto conferia com Dánià o que havia acontecido.
— A que devo a honra? Nem tive tempo de preparar uns biscoitos — brincou Logan.
Dánià estava séria, e inicia a conversar diretamente com o briefing.
— Durante a madrugada, um corpo foi encontrado no píer aqui próximo. Um colega meu que estava no local achou melhor entrar em contato, porque não foi algo natural – falava enquanto programava o veículo para o local, lançou também do deck de bordo do computador uma pasta para Logan — Dê uma olhada na ficha, segundo as informações, era uma adolescente, Karol Wojciech de dezoito anos.
Ela faz uma pausa, tensa.
— Parece que deixaram uma mensagem no local, e a vítima é filha de um pesquisador da universidade politécnica de Gdansk. Antoni Wojciech, que já está no local prestando depoimento — Dánià fita Logan — Parece que você vai começar mais cedo do que imaginávamos.
Enquanto analisava as fichas, Logan tenta fisgar mais alguma informação que considera importante. Por que justo a filha de um pesquisador e ainda mais adolescente?
— Mais alguma informação sobre a vítima? Namorado? Amigos? Só tem o pai?
— Sim, só tinha o pai, não mencionaram namorado, mas parece que era bem popular na escola. Pode ter vários amigos.
— Ou inimigos – afirmou. Dánià assentiu — Logo descobriremos.
Não demorou muito para chegarem ao local, havia poucos olhares curiosos, hoje em dia, as pessoas estão mais preocupadas em manter o respeito do que de fato assediarem uma cena do crime.
Desceram do carro. Ela fez um sinal para ele a seguir e observar.
Dánià foi a frente, e Logan parou logo na entrada do cordão de contenção, o lugar era a beira mar, e logo atrás havia uma pista estreita de terra onde dava para o parque ao qual tinha visto na noite passada. Ao que havia sido dito a ele, o parque era bem largo e movimentado, da janela de onde estava, talvez fosse capaz de presenciar a cena se não houvesse tantas árvores altas no local.
Olhando em volta, não havia muitos lugares para alguém fugir, poderia ir pela areia, ou pelo parque. Se aproximou do cordão, havia um oficial ali, um homem alto, preto, e vestido com a farda da polícia polonesa.
— E você seria quem? - perguntou o oficial.
— Eu sou Logan, prazer, novo investigador em treina.... - Antes que pudesse terminar, Dánià apareceu.
— Está tranquilo, Morsel, ele está comigo, deixa ele passar.
O gigante então ergue a faixa e faz um gesto de prosseguir.
Trent não demorou muito para sentir um cheiro forte de sangue misturado com areia, e com o vento que fazia naquele momento ficava cada vez mais difícil respirar.
Todo o caminho estava coberto com água do mar, a praia à frente parecia bem gelada naquele momento e um píer se estendia para dentro do oceano. O mar Báltico era um mar familiar à Trent, mas agora, olhando do lado oposto, fitava o horizonte, sua terra natal, em algum lugar ao norte. Por um tempo sentiu o vento acariciar seu rosto e os grãos de areia se chocarem com suas vestes, olhou lentamente para baixo. Ali, havia um semblante, feminino, abraçado ao chão. Imóvel, praticamente coberto de areia.
Segundo Dánià, o corpo foi achado na madrugada e só agora de manhã foram acionados, havia cerca de cinco a seis horas que a vítima estava ali, esperando o seu mistério ser solucionado.
Ao se aproximar, sentiu um flash pipocar em seu rosto, a equipe forense já estava no local tirando fotos, e mapeando digitalmente a cena do crime para análise futura. Um dos polícias, possuía uma câmera embutida em seus óculos, e, conforme andava, análises gerais eram feitas, sobre terreno, temperatura e elementos fora do lugar. Trouxeram também um robô de análise de sangue e fluídos. A vítima não estava com sinais de agressão física aparente, e o corpo já havia enrijecido há muito tempo por conta do frio.
Com a amostra de sangue coletada, pode-se concluir que não havia nada de suspeito no sangue da vítima e nenhuma lesão corporal severa, não havia tecido nas unhas e muito menos marcas de agressão na vítima ou de abuso nas partes íntimas.
— E aí? — Dánià se aproximou — o que me diz?
— Dada a posição em que o corpo está — apontou para os joelhos da vítima — ela estava em pé no momento da morte, vê? O corpo não foi arrastado — constatou apontando para os entornos — Mesmo com a areia dificultando nossa investigação, a forma como morreu foi instantânea e fulminante.
— Faz sentido, mas estranho, tudo aponta para uma morte repentina e sem rastros. - Dánià acrescentou.
— Talvez, ou talvez não. Olha só, essa escolha de local é um tanto exótica, não? Chamativa, movimentada, porém não muito. Não há locais de fuga, e pelo fato de ter sido algo repentino torna tudo muito suspeito.
Logan se aproxima do corpo.
Era uma adolescente, um pouco baixa para a estatura, cabelos longos avermelhados, estava de bruços no chão, os joelhos levemente lesionados, os pés descalços, e roupas de frio. Era possível ver que a forma como o corpo estava caído indicava que foi uma morte instantânea, os joelhos bateram na madeira do píer e logo em seguida o rosto acertou a grade ao lado e o corpo girou levemente com o rosto no chão.
Ela estava indo em direção ao píer suspenso na água. Mas alguma coisa aconteceu antes que pudesse chegar.
— Ela só estava com a roupa do corpo? E o tênis dela, acharam alguma coisa? — Perguntou Dánià para um oficial próximo a ela — Pertences?
Enquanto conversava com o policial, Logan aciona uma luva em sua mão direita, que possui um globo óptico. Ele aperta o botão com seu polegar e uma gravação começa. Conforme ele inicia a investigação do corpo, ele pronuncia em voz alta.
— Logan Trent, Polônia Gdansk, caso extra oficial. Vítima. Karol Wojciech, falecida por uma causa ainda desconhecida, jovem, cabelos longos avermelhados, olhos verdes escuros. Estatura de aproximadamente 1,68.
Há um silêncio à sua volta e o sopro gélido do mar empurra mais areia encosta adentro.
Sua voz seca segue narrando.
— Vestimentas de frio padrão, nada fora do comum, unhas com implantes e sem calçados. Local da morte, um píer afastado do grande centro na região de Przymorze. Horário da morte — ele observa o relógio que se acende em seu pulso — aproximadamente duas e trinta e sete da manhã. Observações sobre o corpo da vítima. Portava identidade, um relógio e um prendedor de cabelo
Enquanto falava, Dánià se volta para ele e começa a acompanhar.
— Não há nenhuma lesão ou cortes na pele, o exame prévio no sangue não indicou nenhum tipo de substância em seu corpo. Estava totalmente sóbria e ativa durante o momento da morte. Não se sabe se havia mais alguém com ela e definitivamente o que quer que tenha acontecido foi repentino e de surpresa.
— Não sabia que ainda havia dispositivos como este... - Falou curiosa para Logan.
— Eu funciono melhor quando gravo e registro com minha voz, me ajuda a pensar — Puxou um lenço do bolso, sempre carregava um lenço, como sua mãe lhe ensinou — O braço esquerdo da vítima não está quebrado, mas há sinal de uma deformidade no pulso esquerdo, possível pulso fraturado em algum outro momento da vida. Braço direito sem observações relevantes.
Dánià observa atentamente seu parceiro realizando o registro, e tenta acompanhar de perto.
— Pernas, como mencionado sem calçados, possivelmente estava andando pela praia na madrugada. Joelhos possuem uma lesão clara de queda, com um breve sangramento. — Fez uma pausa enquanto virava o corpo.
— Meu Deus... - exclamou Dánià.
— Fratura no maxilar, possivelmente pela queda pós morte, o crânio foi rachado e o maxilar deslocado ao acertar com a face na proteção do píer.
Logan olha para sua parceira, motivado. Logo em seguida pede para que ela se aproxime.
— Olha só Dánià, bem aqui. Havia algo em seu pescoço que não foi arrancado, mas removido cuidadosamente, após a morte. E há uma marca em seu ombro de algo pesado, uma mochila.
— Temos informações que a mochila e os calçados foram achados em um banco mais à frente na praia. Vou para lá em breve. — ela afirma.
— Então havia mais alguém, e esperava que isso acontecesse. Testemunhou a situação e assim que confirmou a morte, pegou alguma coisa no pescoço da vítima. Mas a causa da morte é, até o momento, desconhecida. Vamos dar uma olhada na mochila, depois falaremos com o pai.
— Por que não antes? — ela indaga, já sabendo a resposta.
— Gostaria de ter uma visão geral do caso antes de falar com ele. Para não deixar perguntas soltas.
Caminharam por cerca de seiscentos metros a frente, em busca do oficial que havia encontrado a mochila abandonada.
A praia era extensa. Mas o banco ao qual a mochila estava encostada era logo à frente. Dánià conseguia ver o par de calçados na parte esverdeada da praia, e a mochila se encontrava apoiada na perna do banco em cima da areia. Havia também alguns pertences soltos no chão.
Dánia se aproxima dos pertences na areia, em seu bolso há um pequeno dispositivo que registra as digitais, ela buscava por pistas, as digitais brilhavam fluorescente.
Para sua surpresa, havia duas digitais diferentes naquela mochila. Uma delas correspondia a Karol, vítima, e a outra ao seu pai Antoni.
— Hum, curioso — Concluiu.
Materiais escolares, estojo, cadernos, carteira, tudo jogado na areia. Também tinha um agasalho que parecia de um tamanho maior que o da vítima e algumas balas de açúcar. Nos calçados, que estavam na parte com grama da região, adentrando um pouco mais ao parque, não havia nada de especial, apenas uma pequena mancha escura que marcava a sola dos tênis. Indicando que pisaram em um terreno molhado recentemente, provavelmente ela caminhou pelo parque antes de chegar aqui.
— Alguma coisa? — Perguntou Logan
— A mochila tem digitais de Antoni, mas fora isso nada de anormal. Isso realmente o torna suspeito, ainda mais porque a mochila foi revirada. Já nos calçados, aparentemente ela caminhou em algum terreno molhado, porém não choveu ontem, então... não sei dizer com certeza.
— Existe algum lago nesse parque, ou um lugar onde eles usam aquele sistema de irrigação automática?
— Existe, fica mais ao sul, saindo do distrito. Tem um lago para aquela região também, é um pequeno cais.
Logan assentiu com a cabeça, fez menção de ir interrogar o pai, agora que tinha a informação da mochila, e aparentemente todo o local estava coberto.
Em poucos minutos em que havia chegado, cada vez mais oficiais iam aparecendo para cobrir a região. Dánià havia acompanhado Logan de volta à cena do crime.
Do lado de fora do fio de proteção, o pai da vítima estava sentado em um banco próximo a uma região mais aberta do parque. O lugar estava pouco movimentado, mas Antoni observava a linha de contenção e chorava, o vento da manhã faziam as folhas sacudirem calmamente e um sopro de ar frio desajeitou o cabelo de Trent.
— Sinto muito pela sua perda, Sr. Antoni — Começou Dánià — Se estiver em condições, gostaríamos de fazer algumas perguntas — Trent o observava com atenção.
— Claro... sem problemas — os olhos estavam cheios de lágrimas, a dor da perda — Eu sou Antoni Wojciech, pai único e solteiro da Karol Wojciech.
— E o senhor pode nos contar o que aconteceu com a mãe de Karol? — Seguiu Dánià.
— Ela faleceu bem cedo, Karol ainda era criança, derrame. Não teve salvação, se ao menos a tecnologia de hoje tivesse se estendido para aquela época, o cenário teria sido diferente.
— Entendo, não deve ter sido fácil, senhor Antoni, a Karol tinha amigos? Sabe dizer se alguém gostaria de fazer mal a ela, algum namorado, alguém de confiança? — Dánià perguntou.
Enquanto enxugava as lágrimas, Antoni dizia.
— Ela nunca me contou nada disso, na verdade ela me contava bem pouco sobre a vida dela. Mas sei que tinha uma amiga, bem próxima, Ewva, amiguinhas desde pequenas e frequentavam a mesma faculdade, onde trabalho. Universidade Politécnica de Gdansk?
Ele gesticula em direção ao centro da cidade. Um prédio alto visto de onde estamos.
— Nunca soube se minha filha teve algum relacionamento, costumam sempre deixar isso escondido dos pais, sabem como é — Os oficiais assentiram — Porém sei que umas noites atrás, ela voltou para casa um pouco agitada e frustrada, parecia que algo tinha acontecido, mas não entrou em detalhes, disse apenas que se desentendeu com um colega de sala. Ewva me disse que Karol era bem conhecida e popular na universidade. Eu como pai tento dar privacidade a ela, ainda mais estando no mesmo local de estudos.
— Ela era filha única? Andando tão tarde assim na rua? Algo aconteceu?
— Nós moramos aqui perto, no conjunto W de prédios da rua principal, ela tem um irmão mais velho, Joshua Wojciech, ele trabalha comigo no setor de pesquisa da universidade.
— Ela tinha saído para a faculdade de manhã, que tinha uma turma de estudos na parte da tarde e que iria até a noite, sair com uns amigos. Disse que iriam ao shopping, cinema e voltaria logo em seguida.
Ele segue, tentando lembrar exatamente o que a filha havia lhe dito pela ultima vez.
— Karol tinha me dito que voltaria com um amigo, mas aparentemente não foi isso que aconteceu. Quando ficou de madrugada, sai para procurá-la, mas não a encontrei, liguei para polícia e aqui estou — ele começa a estremecer, Logan observa que uma de suas pernas começa a tremer agitadamente.
— Senhor Antoni, e o senhor encontrou o que precisava? - Logan finalmente falou.
— Como assim? - ele perguntou, com o rosto vermelho e os olhos marejados.
— Segundo as análises de digitais na mochila de Karol, o senhor a encontrou, não só a encontrou como provavelmente procurava algo — Dánià olhou para Logan, espantada — Ao que me leva a crer, tem algo faltando nessa história, existe alguma outra coisa que gostaria de nos contar?
O semblante dele muda. Percebeu que algo estava errado e que isso não era para ter acontecido, mas ao mesmo tempo Logan observa um olhar confuso no rosto do homem.
Antoni parecia ter cerca de cinquenta anos, mas o rosto era mais judiado do que isso, trajava suas roupas de trabalho, com um jaleco por cima, provavelmente têm jornadas que costumam ir madrugada adentro. Parecia um homem simples, mas de classe média alta.
— Como.... como assim oficial? Eu não sei do que está falando — Estremeceu ao falar.
— Não tente esquivar, é melhor você falar logo ou poderá ter problemas — Dánià insistiu — inclusive, se você não tem nada a esconder, e não for nada demais, não tem por que mentir. É da sua filha que estamos falando, e ela está bem ali, sem vida agora.
Antoni hesitou por um tempo, mas resolveu confessar.
— Certo, eu sei que isso parece estranho, talvez eu não seja tão omisso assim na vida da minha filha. A parte que ela não me conta nada, é verdade. Mas quando ela voltou para casa na outra noite em que agiu estranho, eu comecei a olhar o dia a dia dela de longe. — ele secou as lágrimas — Há mais ou menos dois dias atrás, um rapaz apareceu no corredor do armário dela e jogou algo lá dentro, era um bilhete, ela pegou, ficou um pouco alterada e escondeu na mochila. Achei estranho, e quando tive a oportunidade, tentei bisbilhotar.
Ele coloca a mão no bolso e estende um bilhete úmido para Logan.
O bilhete era de um admirador secreto, falava sobre detalhes em que esse admirador tinha pela filha, mas também uma certa inveja, algo bem mórbido. Ele era de fato um admirador, descrevendo Karol como uma pessoa inteligente e muito sagaz, mas ao mesmo tempo amando sua personalidade e como ele não podia se aproximar porque ela sempre estava rodeada de pessoas.
O texto termina com uma coordenada dizendo para caso ela queira o conhecer longe dos holofotes, e a assinatura apenas diz, “para sempre seu admirador e adorador”.
— As coordenadas mostram justamente este lugar — disse o pai — Mas ela não veio de imediato, eu fui atrás de tentar saber quem era, mas não consegui descobrir nada. Hoje mais cedo, antes dela sair eu devolvi o bilhete na mochila dela. E disse para ela que se estivesse passando por algo, que poderia vir e falar diretamente comigo… infelizmente ela não falou.
Logan e Dánià ficam um pouco desconfortáveis com a situação, mas fazem um gesto para liberarem o pai, se olham, se entendem, que o próximo destino é a universidade.
O barulho da latinha de refrigerante ecoa no pátio. Logan puxa a bebida para dentro da garganta, e reflete um pouco desde que chegou à Polônia. “Mais agitado do que de costume”, e lembrou-se de casa.
Crescer em um lar adotivo não é fácil, mas teve sorte de pelo menos sua mãe se importar, cuidar e zelar por ele. Sempre soube que a vida não era fácil, mas sua posição era diferente, estar aqui agora, fazendo algo que sente que nasceu para fazer, era como honrar sua mãe. Já o seu pai, sentia pouco apreço, nunca entendeu porque quiseram ter um filho adotivo para menosprezá-lo. Já os seus irmãos o acolheram bem, mas nunca foi o favorito entre eles. Se perguntou como eles estariam nos dias de hoje, todos espalhados e praticamente sem contato uns com os outros.
— Tudo bem? — Dánià o traz de volta — Parece distraído.
— Sim, tudo. É, estava lembrando da infância, alguma coisa está fora do lugar neste caso até o momento. E isso me traz lembranças.
— Teve uma infância difícil?
— Não chamaria de difícil, mas não foi comum. Acho que pra todos nós nunca é, a grama sempre é mais verde na casa do vizinho. Mas enfim, vamos?
Dánià assente, e adentram a Universidade Politécnica de Gdansk.
O local era arrojado e imenso. Misturando uma arquitetura européia antiga, da monarquia, e prédios atuais imensos. Aqui, estavam praticamente na entrada do centro de Gdansk. O local possuía diversos parques, praças e edifícios com pátios, tudo bem alto e bem modernizado.
Ao adentrarem nos corredores da universidade, são inundados por telas, mesas modernas e vários quadros holográficos digitalizados. Pessoas conversando em rodinhas de amigos e passos acelerados ecoando por todo o saguão. A maioria adolescentes com olhares curiosos sobre os estranhos que chegaram em seu ambiente.
De fato, chega a ser intimidador.
A dupla então parte em busca da sala do reitor. Pedindo informações, eles seguem em direção a um prédio alto, de sete andares e bem robusto no centro do campus. Por um elevador moderno eles sobem até o quinto andar, as portas se abrem e um grande hall se estende à frente deles. Adornado com diversas colunas e plantas exóticas, o hall é recebido por uma voz que ecoa do lado oposto de onde entraram.
— Olá, investigadores, o reitor lhes aguarda na sala ao lado, caso queiram uma água, só pedir — disse a secretária, escondida atrás de uma grande bancada à frente —- Após entrarem, se puderem fechar a porta, agradeço.
E assim o fizeram, a maçaneta de ouro fez um clique alto ao ser cerrada por Dánià adentrando a sala de reunião.
O reitor era um homem alto, mas carcomido, um pouco desajeitado e com um aspecto de velho. Parecia um maracujá maduro, bem enrugado e com uma leve cor amarelada na pele. Os olhos eram afiados como uma faca, fazendo-se clara sua descendência oriental. Ele estende a mão para Logan, que o recebe com um forte aperto de mão. Apesar das aparências, o aperto era firme e o olhar era penetrante.
— Boas-vindas ao nosso campus oficial, sinto muito que tenhamos que passar por isso. Antoni é um dos nossos melhores pesquisadores. — ele faz um gesto para sentarem — Espero que possamos ajudá-los em qualquer forma possível.
— Todos lamentamos, de fato é algo incomum e um ocorrido bem... peculiar, não acha reitor? - questionou Dánià.
A parceira de Logan de fato se comunicava de forma bastante direta, tentando sempre explorar um desconforto velado dos interrogados.
— De fato, Karol é... era uma aluna brilhante, não seguiu os passos do pai, mas ainda assim uma excelente estudante. Ela vivia rodeada de amigos — Ele faz uma pausa, servindo um copo de água para todos — Não vejo nenhum deles desejando o mal dela, era uma boa menina, uma boa estudante e muito querida por todos nós, um tipo de aluna que toda faculdade gostaria de ter.
— Karol tinha amigos reitor? Antoni comentou sobre a Ewva, acho que era a melhor amiga dela, sabe dizer se ela estaria no campus nesse momento?
O reitor ficou um tempo refletindo, puxou uma tela na lateral da mesa e fez uma pesquisa rápida.
— Ewva se encontra agora no centro de robótica e eletrônica. Ela e Karol estavam sob orientação de Bozena Lalchowist, desenvolviam um sistema de robótica bem interessante, peço que tenham cautela, ninguém no campus ainda sabe sobre o ocorrido, além do pai de Karol.
Ele mostra na tela um mapa da faculdade e comenta direções.
— Para chegar ao laboratório, volte pelo elevador que veio, vê aquele prédio mais à frente? É para lá que vão, assim que chegarem, avisem o recepcionista sobre vocês que ele lhe dará instruções.
— Obrigado Reitor, caso seja necessário, voltaremos aqui para mais informações, se for possível.
O reitor responde com um aceno positivo com a cabeça, e lhes deseja uma boa tarde.
O som do sinal demarca o horário do intervalo, era próximo das onze horas quando os corredores se abarrotaram de alunos, vários conectados a dispositivos e comunicadores, outros corriam para lá e para cá conversando e falando sobre as aulas e pesquisas futuras.
O pátio interno, que antes era aberto e vazio, agora estava lotado de pessoas, conversando e falando sobre os mais variados assuntos, e aproveitavam o pequeno horário de intervalo para comerem e se atualizarem das notícias externas. Logan lembrou do seu tempo na faculdade, fora bem diferente do que podia ver aqui, outra época, outros tempos. Era visível as barreiras imaginárias entre grupos, estilos e tribos. As pessoas que tinham interesses parecidos se juntavam para conversar. Porém, na época de Logan, ser diferente era ser deslocado, isolado e solitário.
Ele esboçou um sorriso, feliz por saber que, mesmo que minimamente, os tempos pareciam estar mudando. Talvez para melhor, e aquela época do passado não voltaria, pelo menos não para essa geração.
Ao passarem pelo pátio, adentraram ao prédio de robótica. Imediatamente o ambiente mudou, as paredes brancas tomaram conta e uma arquitetura mais contemporânea ganhou destaque. Corredores lisos e retos, paredes que não tinham muitos adornos e brancas com pequenas paletas coloridas de destaque se estendiam pelos corredores. Parecia um hospital, tinha cheiro de hospital, porém, tudo ao redor deles brilhava igual metal.
— Ah! Vocês são os visitantes que o reitor comentou, estou correta? — a recepcionista disse de uma forma peculiar.
Era uma pessoa, parecia uma pessoa, mas seu corpo era abarrotado de fios e luzes. Apenas a cabeça tinha um formato de homem. Dánià e Logan não sabiam como reagir.
— Eu sei, eu sei, a princípio, todos têm essa reação, mas não se preocupem! Eu estou aqui para ajudar — sua voz era fina, limpa, e com uma dicção completamente diferente, mas o que mais incomodava, era esse sotaque, ou melhor, a ausência dele.
— Venham comigo, Ewva está aguardando na sala ao lado.
Os investigadores seguiram a forma corpórea, que parecia ter mais equilíbrio que qualquer outro ser humano, mas com um movimento que causava estranheza. Ela olhava em volta e reagia às incidências de luz e variações no ar, tinha reflexos que pareciam humanos, um olhar inquieto e um pulmão levemente pulsante, mas ainda assim, não parecia nada como algo que já viram na vida. A porta se abre, e uma menina com um olhar vago fitava a janela.
Era possível ver que na mesa a sua frente tinha um béquer e um bico de bunsen, e bolhas saiam de dentro do vidro.
A figura estranha que havia acompanhando os agentes fez um gesto para entrarem, logo em seguida fechou a porta e voltou ao seu posto.
Logan e Dánià se aproximaram da moça, ela percebeu a presença deles e se assustou, pegando a mochila e esboçando espanto.
— Ewva, somos Logan Trent e Dánià. Investigadores e precisávamos ter uma palavrinha contigo, chegamos em má hora?
Ewva olha para os lados sem saber como reagir, mas ao observar Dánià, que a retribui com um sorriso, ela se acalma e entende a situação.
— Oh! Não, imagina, de forma alguma, o que posso fazer por vocês oficiais, está tudo bem? - Falou Ewva enquanto desligava a chama – fiz algo de errado?
— De forma alguma – Disse Dánià, meio incerta de como prosseguir. Logan começa a passear pela sala, olhando os detalhes — Ewva, você conhece Karol Wojciech?
Ewva estremece os lábios.
— Conheço... alguma coisa aconteceu com ela? Por favor, digam que ela está bem!
— Ewva, não temos forma melhor de descrever isso, mas, Karol Wojciech foi encontrada morta hoje, perto de um píer na região de Przymorze. Ao que tudo indica, as circunstâncias da morte dela são um mistério, mas nos foi informado que você a conhecia muito bem.
— Oh não. Karol... está? Não. não não não. - Ewva se emociona.
— Sentimos muito pela perda de sua amiga. Mas se souber qualquer coisa, ou se lembrar de qualquer coisa... ajudaria muito.
Ewva tenta engolir o choro, não consegue, sua voz sai aos pranto e completamente desnorteada, tentando processar a informação.
— Karol diferente do que muitos dizem não era bem popular, tinha muitos amigos, sim, mas com a descoberta recente dela, ela se sentiu deslocada. Descobrir que é adotada foi um baque forte para ela.
— Como assim? — indagou Trent.
— Ela é adotada. Não sabiam disso? Ela carrega o sobrenome do pai, mas não é do sangue dele. Antoni nega, mas recentemente Karol foi ao laboratório de genética e tentou fazer um estudo de sua linhagem.
Ewva tenta secar as lágrimas, a voz sai tremula e os olhos estavam vermelhos.
— Parece que seus verdadeiros pais foram mortos em algum tipo de acidente. E ela como era bem nova acabou indo para um orfanato. Na época, o irmão mais velho dela, Joshua era bem novinho e Antoni ainda era casado, resolveram adotar uma filha pois tinham medo de que a esposa dele na época não conseguisse suportar outro parto.
— Karol era adotada?
— Eu achei que vocês sabiam, quer dizer, eu só soube depois que ela me contou, mas Antoni não gosta que toquem no assunto, não pelo fato em si, mas sim porque ele a considera família — Ewva enxugava as lágrimas.
Os investigadores se entreolham. Estava claro que não só Antoni tinha mais informações que não lhes contaram, como o fato de ela ser órfã adotada se levanta muitos holofotes.
— Ewva, a Karol comentou com você sobre algum admirador secreto?
Ela fez uma pausa para lembrar, e então seu rosto esboça um estalo.
— Sim! Não chamaria de um admirador secreto, mas mais um pervertido. Há uns dias uns bilhetes estranhos começaram a aparecer no armário dela. No começo eram só elogios, dizendo como ela era diferente e especial, mas depois que ela descobriu sobre seu passado, o foco do assunto começou a ser sobre encontrá-la.
Ela continua, como se estivesse honrando sua falecida amiga.
— O mais engraçado é que Karol sempre teve pessoas por perto, mas a popularidade dela só aumentou depois que o boato de sua linhagem se espalhou. Antoni finge que os boatos não o afetam, mas já vimos ele se trancar no escritório. Em respeito, os alunos não falam nada perto de ambos, mas foi o assunto do momento, ainda é.
Logan com a nova informação tenta entender como isso escapou de sua alçada. Nada no corpo de Karol indicava que ela era filha adotiva, nem mesmo os testes mais complexos revelaram isso. Ou melhor, nada visível. Sua mente tentou conectar algumas pontas soltas, o admirador secreto é alguém que saiba sobre a situação dela, conviva com ela, mas não ousou se aproximar até o momento de sua morte, morte esta que não foi algo visível.
A não ser que...
— Por acaso Ewva, você sabe me dizer quando que Karol foi ao laboratório de genética tirar a prova de sua adoção? — indagou Trent.
— Olha, faz uma semana, mais ou menos.
— Certo, com quem posso falar lá no local? Teria alguém lá nesse horário para eu fazer algumas perguntas?
— O representante do laboratório de genética é o Joshua, irmão mais velho dela.
— Não pode ser – Concluiu Logan.
Com arma em punhos Dánià e Logan adentram ao recinto, havia algumas pessoas no lugar, civis, e alguns pesquisadores e recepcionistas. Eles fazem sinal para todos saírem com calma e organizadamente, Dánià toma a dianteira enquanto Trent assegura a saída para todos.
— Joshua! Onde está? — pergunta para um grupo de alunos.
— Ele está no escritório, no final do corredor à direita. Se trancou no escritório o dia todo.
Logan saca sua arma, na realidade um bastão, com uma ponta elétrica bem sutil, parecendo um taser gigante. Na outra mão, sua pistola, portátil, com projéteis desestabilizantes. Dánia checa o corredor, sonda e afirma que está limpo, vai até a porta com o nome do suspeito estampada nela, nota-se uma movimentação lá dentro, há duas pessoas.
— Você estava maluco! Por que você fez isso? — era uma voz familiar.
— Porque ela não era minha irmã! Você não percebeu? Ela não era nosso sangue! — exclamou uma outra voz mais impositiva — Não importa quantas vezes você acredite, ela não era nossa família.
Logan chuta a porta, à sua frente, um escritório se abre, com diversas estantes, telas, fios, uma mesa moderna com cadeiras postas e atrás dela, duas silhuetas, uma era Antoni.
O outro, Joshua. Ambos eram a imagem esculpida um do outro, totalmente iguais.
— Parados! Todos com as mãos para cima e calados! - Gritou Dánià.
Joshua agarra seu pai e o coloca em sua frente imobilizado, com um bisturi em sua mão ele leva a arma ao pescoço de seu familiar, não está trêmulo, com o pulso firme. Gritos são ouvidos do corredor, vozes de espanto. Joshua aponta para Trent.
— Vocês, vocês aparecem só para destruir nossa vida, não existe justiça no que fazem, nunca entenderam, jamais vão entender — E então, Joshua passa a lâmina do bisturi no pescoço de seu pai. E o solta.
Tiros são ouvidos, e um grito de protesto. Antes do corpo cair no chão, são ouvidos quatro disparos. Trent havia apertado o gatilho três vezes, Dánià uma, os quatro tiros acertam o alvo.
Joshua cai no chão, imóvel.
Rapidamente Logan se aproxima de Antoni, leva as mãos no pescoço do homem e aperta com força. Ele consegue ouvir Dánià falar algo abafado em seu comunicador e se aproxima do filho baleado.
— Ela... ela está viva. Karol está segura — E antes que pudesse falar mais alguma coisa, seu corpo amolece, os olhos endurecem, e a respiração para.
— Antoni! Antoni! — Logan balbucia — Mas que merda.
Dánià põem a mão em seu ombro, Trent olha para ela, frustrado, uma família inteira, uma família foi destruída.
A lamentação sai de seus lábios, e a história se repete.
Já era fim da tarde quando Logan terminou de dar seu último gole em um refrigerante que havia comprado. Dánià ao seu lado parecia exausta. O dia foi curto, mas pareceu uma eternidade. A equipe forense estava terminando com a cena do crime e a mesma oficial que os recebeu em campo no píer estava agora à sua frente.
— Senhores? Acredito que queiram saber das informações — indagou.
— Na realidade, não, mas é o protocolo.
— Primeiramente, não achamos nada no setor que nos leve a Karol, acho que Antoni apenas estava delirando quando disse que ela estava viva. Então descartamos essa possibilidade, segundo. O teste de genética apontou que Karol era filha de fato de seu falecido pai, o teste foi forjado por Joshua e no meio do processo ele adicionou uma substância fantasma que causou a morte da irmã mais nova.
Ele segue, comentando conforme mostra o relatório para os agentes.
— O que explica a falta de rastros no sangue e no corpo, essa substância possui um elemento completamente nulo e neutro que age lentamente no corpo e se confunde com as células sanguíneas, o corpo então começa a reproduzir essa substância e causa uma pane geral. Deixando inconsciente a vítima. Porém em doses mais altas causa a morte fulminante.
Um silêncio percorre o trio, apreensivos.
— E a última notícia. Nos pertences de Antoni em seu laboratório, no setor ao lado, encontramos algumas coisas, a corrente roubada do pescoço da vítima, que, dentro dela, há um dispositivo. Deixamos separados para caso queiram investigar, parece que precisa de uma porta de entrada específica — Ela entrega o dispositivo para Dánià — fora isso acredito que não há mais nenhuma observação, então vou finalizar a papelada e limpar a cena.
— Obrigada oficial, a vontade – falou Dánià.
— Eu sabia que ela não era adotada. Os olhos nunca mentem — concluiu Trent — Terminamos por hoje?
Dánià assentiu.
— Tenho cerveja gelada no apartamento, caso queira compartilhar.
— Vamos — afirmou Dánià.
EPÍLOGO
Já havia algumas horas que estavam bebendo e Logan tinha uma comida congelada na geladeira que serviu de janta para os dois, mal comeram, mas pelo menos botaram algo no estômago.
Trent se lembrou do dispositivo dado a Dánià. Ambos o colocaram na entrada do apartamento. O papo foi indo e vindo enquanto o Adjutor decodifica o que quer que seja que estava ali dentro.
Passados longos minutos, uma imagem azul pipoca na frente deles enquanto conversavam sobre o caso.
Era uma lista de códigos enorme, quase infinita. Depois do código passar repetidas vezes na tela, uma linha horizontal se forma e se move, dela, sai uma voz.
— Oi Pai! Como está? Dormi demais não foi? — era uma voz feminina.
— Não é possível — Logan deixa cair a lata no chão. Karol? — indagou Dánià.
— Está brincando comigo? — a voz feminina responde — sua voz está diferente, parece mais feminina. O que houve?
— Mas o que está acontecendo? Que merda é essa Logan?
Sem palavras, ele olha para o que se passa na sua frente, e tudo parece fazer sentido. Mas ao mesmo tempo um sonho... não parecia certo, não era certo. Mas aquilo lhe intrigou, e ele perguntou.
— Karol, você, por acaso tem um corpo?
— Não — ela respondeu — Meu pai me criou, mas eu ainda estava sendo testada. Minha personalidade toda está aqui, mas o meu corpo ainda estava em desenvolvimento. naquele momento, tudo parecia ter virado um grande e gigantesco problema.
A vida poderia ser um sonho, mas é muito pior que isso.
