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Devorador de Sentimentos

Albert Luvisc presencia uma revolução diante de seus olhos. Ao mesmo tempo, uma inquietude cresce dentro dele. Algo está mudando.

Pedro Budaibes

4/16/202621 min read

20/07/2047
Nome: Albert Luvisc
Localização: Moscou - Rússia

As ruas alagadas pareciam um gigantesco espelho, quase impossível distinguir o que era realidade ou reflexo.

Estava excessivamente escuro em Moscou naquela noite. O vapor quente que emanava da cidade fazia tudo parecer um pouco mais sombrio. Graças à Quebra, Moscou evoluiu de uma forma um tanto curiosa, se comparada a outras cidades comuns da Rússia. Em sua engenharia, a cidade se reinventou. Na grande metrópole, tudo foi projetado para aguentar o frio intenso que sempre existiu ali, agora mais severo por conta da reestruturação de todas as calotas polares.

Os prédios eram abastecidos com um sistema interno a vapor, aumentando o calor intensamente e fazendo com que o local vivesse em um verão eterno em meio a uma névoa espessa. A grande metrópole não era tão verticalizada quanto a maioria das cidades ao redor do mundo; logo, o Verticalismo não era muito presente. Os prédios eram aglomerados com o intuito de manter o calor dentro da região. Ainda assim, as luzes de neon e o futuro haviam chegado a Moscou.

As ruas eram iluminadas por uma cor azul bruxuleante. O calor abraçava a todos, e a névoa dificultava um pouco a vista, mas dava um charme inigualável para a gigante cidade russa. As linhas de carros aéreos passavam acima da cabeça das pessoas como vultos que podiam ser vistos pelo canto do olho. A cidade era enorme se olhada do chão, onde as pessoas caminhavam tranquilamente na rua. A famosa Praça Vermelha estava sendo preparada para receber o Natal de braços abertos. O Teatro Bolshoi iria receber uma das maiores mentes do mundo para fazer um grande anúncio. O Kremlin estava lotado de turistas; afinal, era final de novembro, e o fluxo de turismo na cidade aumentaria em muito.

As ruas serpenteavam por diversos corredores, grandes e pequenos, onde as pessoas caminhavam para lá e pra cá. Moscou se encontrava abarrotada de todos os tipos de etnias durante essa semana. Um sentimento de união pairava no ar, não só por conta do Natal, mas pelos novos ares que a humanidade ainda estava se acostumando a entender. As pessoas nas ruas estavam sempre sorrindo, não como uma máscara, mas com gracejo e alegria real.

Era uma boa época, considerando o contexto de nossa história.

O mundo era outro agora, a vida pertencia a nós, e o futuro, apesar de incerto, parecia muito brilhante em nossos olhos e mentes.

O maior evento de tecnologia acontecia na cidade durante aquela semana. Grandes mentes e empresas de todos os setores tecnológicos se reuniram em diversos pontos da cidade, com diversas palestras, inovações e revelações do mercado para serem divulgadas.

Durante o evento, a empresa Esvh, uma das gigantes do mercado, estava planejando anunciar ao mundo um novo produto no qual estavam trabalhando em segredo por anos. O CEO, Duncan Istval, anunciaria pessoalmente as novidades no palco do Bolshoi, todos aguardavam ansiosamente o que o futuro nos reservava e como ele poderia ser implementado no nosso dia a dia.

O local estava lotado; parecia que toda Moscou se aglomerava ali naquela noite. Devido à importância e à quantidade de ingressos vendidos para acompanhar o evento, a segurança foi redobrada.

Depois de Thomaz Godglin, Duncan Istval era o segundo maior gênio da época, envolvido no mercado de saúde e um dos responsáveis por aumentar a expectativa de vida dos seres humanos em 20 anos, retardando ainda mais o momento de envelhecimento. Apesar de Thomaz ter revolucionado o mercado com grandes implantes e um avanço inigualável na tecnologia corporal, Duncan era o homem da mente futurista.

A expectativa de vida da humanidade havia subido para 120 anos, sendo considerada idosa apenas uma pessoa que havia passado dos 90. Agora, Duncan anunciou que havia uma tecnologia que a Esvh criou e que possibilitaria à humanidade dar grandes saltos em relação à vida e à mente.

As pessoas já estavam se aglomerando nas poltronas. O palco ainda estava escuro, mas havia um telão passando informações sobre a empresa. “Grandes feitos realizados em pouco tempo”, isso se repetia com frequência a cada slide que passava. A segurança já começava a tomar postos no local, todos armados com pistolas, e, nos andares de cima, havia quatro policiais com rifles de assalto. O local estava transbordando de pessoas. Empresários e investidores se assentavam nas colunas superiores comentando sobre as novidades do mercado e olhares curiosos eram vistos espiando para nós, aqui embaixo.

Uma das pessoas estava prestes a entrar no salão foi parada pelo segurança que estava checando os ingressos e credenciais.

— Documento e ingresso, por favor. — solicitou o oficial.

— Perdão, eu esqueci que estava chegando — dizia atrapalhado enquanto puxava sua carteira — deixe-me pegar a identidade.

— Para todos na fila! Favor ficar com o ingresso e documentos na mão! — vociferou o guarda para as pessoas atrás daquele homem.

O rapaz puxou o documento, corado de vergonha. O guarda olhou. Uma luz azulada disparou de seu pulso, comparando os documentos, e, logo em seguida, devolveu ao dono.

— Tenha um bom show, senhor Ivan Sergei. — o guarda lhe deu passagem.

— Muito obrigado. — e partiu. Acenando sem graça.

Ivan então passou pelo detector de metais; o guarda olhou para ele com um sorriso e abriu caminho. Ivan era um homem franzino, alto, extremamente bem arrumado, cabelo curto, quase careca, e usava um óculos redondo grande.

Ao adentrar o salão, enquanto procurava seu lugar, Ivan olhava em volta do local. Era um grande salão, com um palco humildemente bem adornado e grande. Quase todas as pessoas já estavam sentadas quando ele avistou seu assento, em meio a duas mulheres. Ele foi em direção ao lugar.

— Me dê licença… opa, obrigado, licença, licença, obrigado, desculpe — ele ia dizendo enquanto passava pelas pessoas.

Ao chegar em seu assento, colocou todo o seu peso na hora de sentar, a cadeira ameaçou ceder um pouco. Uma das mulheres se ajeitou na cadeira, um pouco desconfortável.

Um letreiro no telão principal se iluminou:

“3 MINUTOS”.

— O que vocês acham que eles vão anunciar, hein? — perguntou uma das mulheres.

— Pelo que diz os boatos, é um projeto que está há muitos anos sendo realizado escondido de todos, tamanha importância só pode ser algo revolucionário — disse a outra mulher, e continuou.

— Talvez algo relacionado ao último anúncio, sobre prolongamento da vida, conservação de membros… e o senhor, o que o senhor acha?

Ivan olhou lentamente para as duas, soltou um sorriso de canto de boca; ele ia entrar na brincadeira delas.

— Eu acho que talvez a Esvh anuncie algo sobre os mortos, talvez como fazer um transplante de mente… ou algo do tipo. Trocar a mente das pessoas, poder usufruir de corpos que se foram para prolongar a vida de um outro ser humano à beira da morte ou até mesmo salvar a mente de algum paciente que sofreu um acidente, deixá-lo em estado flutuante e investigar seu infortúnio. Isso seria uma revolução e tanto, o que acham? Algo similar ao Atlas atual.

Uma das mulheres olhou surpresa, enquanto a outra deixou escapar uma risada alta.

Quando uma delas fez menção de responder, a música aumentou no palco, as luzes se apagaram em volta de todo o teatro e todos se ajeitaram na cadeira.

No telão agora estavam passando as imagens e resumos dos maiores feitos da Esvh e de Duncan. Assim que o vídeo acabou, um homem baixo, relativamente forte, cabelo black power comprido e pele escura entrou no palco. Ele ficou em silêncio por um tempo esperando os aplausos acalmarem e as pessoas se sentarem. O homem então ergueu as mãos, pedindo para o público se sentar, pois o show ia começar.

— Boa noite a todos que estão aqui! Sou Duncan, CEO da empresa Esvh! Sei que muitos de vocês estão se perguntando qual é o grandíssimo segredo. Mas antes de mais nada, eu preciso contar um pouco sobre a experiência e o processo de tudo isso.

Ele fez uma pausa.

Alguem tossiu em meio ao silêncio obtuso que preenchia o salão.

— Ao longo dos anos, a Esvh vem se dedicando a ajudar no desenvolvimento da medicina e da pesquisa para encontrar soluções diretas ou alternativas para grandes problemas que assolam a sociedade até hoje. Já faz séculos que buscamos um certo tipo de durabilidade para as nossas vidas.

O som abafado do microfone cortava o ambiente, as paredes reverberavam a ansiedade das pessoas de forma palpável.

— Recorremos à tecnologia material para isso — ele gesticulou com as mãos — os robôs e implantes nos ajudaram a prolongar nossa vida de forma artificial, e não há nenhum problema nisso, porém, há aqueles que gostariam de ter sua vida natural, sem intervenção da transhumanidade.

Todos estavam muito atentos ao que Duncan estava falando; Ivan o observava atentamente. O anfitrião então continuou seu discurso.

— Anos atrás, a medicina deu um salto gigante com a possibilidade das impressoras 3D para a criação de órgãos artificiais, tivemos o advento do retardamento do envelhecimento de células, que possibilitou um aumento de expectativa de vida em muitos anos. Buscamos sempre ajudar o ser humano da melhor forma possível, trazendo soluções as quais achamos necessárias à nossa sociedade e ao nosso entendimento. Hoje, aqui, diante de vocês, iremos revelar algo jamais visto, muito pensado e debatido, mas, pela primeira vez no mundo, realizado.

Os cochichos começaram a preencher o lugar. Duncan então faz uma pausa, esperando o silêncio retornar.

E então continua.

— Senhoras e senhores, eu revelo a vocês o projeto HEAVEN.

Os aplausos entoaram no recinto. Apesar de ninguém saber exatamente o que era ainda, já estavam aplaudindo.

— HEAVEN é um sistema criado em prol do entendimento da vida. Graças aos implantes novos do mercado fornecidos pela CyberEye, em conjunto a eles, conseguimos desenvolver um sistema neural extra. Ou seja, um chip cerebral que permitirá que a pessoa grave sua personalidade, o seu ego dentro deste chip. — ele mostra a todos o chip neural atual — Ele pode ser acessado remotamente ou manualmente. Esse chip irá gravar uma versão de você em um compartimento extra. Ou seja, mesmo que você venha a falecer ou morrer, haverá uma personalidade sua gravada até o último instante dentro de seu cérebro, à qual os especialistas, robôs e profissionais terão acesso.

Empresários nos andares superiores já comunicavam entre si possíveis investimentos e rotas de conseguir lucrar com uma tecnologia dessa. Eu, já conseguia imaginar como isso ajudaria o trabalho de muita gente.

Duncan segue seu monólogo.

— Caso você venha a falecer, os médicos usariam este Chip de Personalidade, e ele poderá ser reimplantado em outro corpo, ou outra máquina, e sua vida irá continuar a partir dali. Além disso, esse chip também pode ser usado para realizar diagnóstico de diversas doenças em estágios avançados, possibilitando realizar testes na personalidade atual sem realizar um tratamento às cegas. Graças ao sistema Atlas, conseguimos aprimorar as memórias com algo mais complexo e duradouro.

O palco estava atônito, um silêncio um tanto perturbador.

— Eu sei que isso para vocês soa como algo complexo, algo impossível. Porém, iremos demonstrar a vocês, transumanos e humanos, todo o resultado de nossas pesquisas, aqui, neste palco e neste exato momento. Como não queremos uma chacina gratuita neste local — brincou — trouxemos um chip de um paciente terminal, já implantado no corpo deste robô. Logo ao meu lado, trouxemos um corpo orgânico, sem vida, que faleceu há duas semanas por conta de um acidente.

O robô é trazido pelo lado direito de Duncan, enquanto uma mesa sendo carregada por quatro pessoas é trazida pelo lado esquerdo, com um homem de jaleco surgindo logo depois.

— Como podem ver, o robô da série LN tem sua própria personalidade, vamos, se apresente!

O robô olha brevemente para todos no salão.

— Boa noite, pessoal! Eu sou Leonardo, um voluntário à demonstração desta nova tecnologia desenvolvida pela Esvh, com supervisão de Duncan.

— Eu sei, eu sei, vocês estão pensando: "isso não prova nada, como saber se ele realmente é um humano no corpo de um robô?". Na realidade, é muito simples. Este corpo que trouxemos aqui é o corpo do falecido Leonardo. Para comprovar o que estamos falando, iremos mostrar seu registro, óbito e histórico aqui no telão.

E assim foi feito. Lá estava o registro visual de Leonardo Gusman, um ex-bibliotecário, falecido por conta de um problema nos rins. Não havia chance de cura. Leonardo tinha trinta e oito anos quando faleceu num hospital aqui da Rússia.

— Agora observem. Nós poderíamos, sim, simplesmente desligar o robô e fazer o transplante deste chip para seu velho corpo, que agora possui novos rins funcionais. Mas queremos mostrar que, mesmo com o falecimento da carcaça robótica, o Chip de Personalidade está implantado na cabeça de Leonardo. Então, iremos pedir, por gentileza, que Leonardo infrinja um dano crítico em sua carcaça, resultando em sua morte.

Ivan dá um sorriso com o canto da boca, discreto, ele coloca a mão embaixo do banco e pega algo que estava preso embaixo do assento. As pessoas estão muito angustiadas para prestar atenção nele, que levanta e caminha até o corredor do palco, puxando de seu casaco o objeto que estava carregando.

Leonardo então aponta uma arma, que estava em sua mão, para sua cabeça. Todos na plateia ficam impressionados. Alguns até gritam para não fazer o que foi pedido. Outras pessoas cobrem os olhos, mas todos, todos ouvem o estampido quando o gatilho é puxado. O som ecoa pelo teatro inteiro.

— BANG!

Alguns segundos passam… um silêncio toma conta do lugar. Vemos Leonardo caindo ao chão, seu robô desabou pesadamente no palco.

Por um momento Duncan se vira para a platéia eufórica, porém percebe que todos olhos para ele, assustados e atormentados.

Ele olha para baixo e leva a mão ao peito: sangue. Uma dor forte e uma pontada o fazem cair no chão aos gritos.

De pé, em meio ao corredor, Ivan está com uma pistola em mãos, ele olha fixamente para Duncan, agora caído no chão. O caos se instaura. As pessoas começam a correr de um lado para o outro.

Ivan anda em direção ao palco. Ele fica frente a frente com Duncan. Eles se olham fixamente.

— Parece que você não terá uma segunda vida, senhor Duncan. Foi bom te conhecer.

Ivan se levanta, é possível ver que os guardas já estavam nos corredores do teatro com as armas apontadas.

— Boa sorte ao me pegarem — zomba Ivan.

Logo em seguida Ivan leva as mãos à cabeça, solta um grito abafado e cai no chão, desacordado.

A segurança chega no palco e Duncan está à beira da morte, Leonardo está caído no chão, um assistente encontra-se embaixo da mesa onde o corpo orgânico de Leonardo está.

— Duncan não vai sobreviver, precisamos fazer algo, AGORA! — disse um segurança.

— Rápido, contatem a emergência — o outro segurança disse no rádio — depressa, não há muito tempo, ele está gravemente ferido!

O assistente, trêmulo, sai de baixo da mesa.

— Dun-can tem um ch-ip implantado em sua me-nte, podemos colocar no co-..corpo de Leonardo!

— Mas e o outro chip, o do robô? Ele é o dono do corpo! — o segurança esbravejou — não podemos fazer isso!

— Enquanto tivermos o chip de Leo, não haverá problemas, ele só não vai poder retornar ao seu corpo — o assistente explicou — agora venha, precisamos ser rápidos!

O assistente coloca Duncan numa posição sentada e abre o compartimento de implantes localizado na nuca do CEO moribundo. Ele corta uma parte, o sangue começa a escorrer; colocando a mão lá dentro, ele puxa o chip ensanguentado.

Se levantou rapidamente e correu em direção à mesa. Ergueu o defunto, realizou o mesmo corte na parte posterior do corpo e insere o chip lá dentro.

Quando todo esse processo acaba, ele desaba no chão e respira aliviado.

— Pronto. Agora, nos resta esperar…

Alguns segundos se passam.

— AHHHH, PORRA! — o corpo com o chip começa a gritar — AHHHHHHhhhh… o quê? O que está acontecendo? A dor foi embora, o que está havendo?

— Senhor Duncan? Está conosco?

Os seguranças olhavam assustados. Parecia realmente ser Duncan ali no corpo que há pouco estava imóvel.

— Sim, sim, sou eu… Deus, o que aconteceu aqui? — perguntava o CEO enquanto olhava em volta. Ao ver o seu corpo, ele travou. — Eu. Eu morri?

— Sinto informar-lhe, senhor, mas você foi baleado por alguém da plateia. Três tiros no peito, não havia outra alternativa a não ser colocá-lo no corpo de Leonardo Nusman.

O ajudante comentou.

— Mas veja pelo lado bom: conseguimos prender o meliante. Ele desmaiou depois de todo o alvoroço.

— Bom, lá se vai toda a apresentação. Que belo início para o futuro, eu diria. O que faremos com Leo agora? Não temos corpos sobrando, né? Apenas robôs — falou Duncan com um pesar.

— Iremos providenciar alguma coisa, senhor, não se preocupe — o assistente estava recolhendo e limpando o sangue da nuca de Duncan — precisamos sair daqui, a sua vida ainda está em risco.

Ele volta o olhar para os seguranças, que ainda estão boquiabertos.

— Os senhores poderiam nos escoltar até a empresa? Lá estaremos mais seguros.

Meio sem reação, apenas afirmam com a cabeça. Um deles chama o comunicado pelo rádio. Não demora muito até a polícia aparecer nos halls do teatro com armas em punho para levar Duncan para fora, coletar um depoimento e então partir.

Logo em seguida, um homem entra no palco: um corpo torneado, ele andava com elegância, uma barba bem feita e o cabelo grisalho. Ele tinha uma postura ereta que lhe dava imponência, um terno de alta qualidade e um cabelo curto.

Os oficiais apontam a arma diretamente para ele, e os guardas no andar de cima fazem mira em sua direção.

— Boa noite, senhor. Você seria quem?

— Meu nome é Luvisc, Albert Luvisc. Sou um funcionário de investigação da Alemanha que está prestando serviço às forças aqui de Moscou durante o evento desta semana, e me colocaram como encarregado do caso — Luvisc fez uma pausa e olhou para o segurança — aqui está meu distintivo.

Os guardas se entreolharam, um deles toma a frente e analisa os documentos, a checagem retornar verde.

— Ele é verde, fiquem tranquilos homens, estabeleçam perímetro e preparem para retirar Duncan daqui. — ele se vira para mim — Muito bem, Luvisc, fique a vontade, Ivan ainda está desacordado.

Eu me aproximo do corpo caído, me abaixo e pego um copo de água que estava no púlpito. Logo em seguida jogo na cara de nosso amigo desacordado.

Ele se debate tentando entender o que está acontecendo.

— Ivan, certo? Diga-me, qual foi sua intenção ao tentar assassinar Duncan Istval? — Luvisc se aproximou do rapaz.

— Assassinar? Do que está falan.. — Ivan olha em volta. — Mas o quê! O que é isso? O que aconteceu? Onde estou? Eu não fiz isso, não, jamais faria! — ele percebe que tem uma arma em suas mãos — AAH, não, jamais, eu nunca faria isso! — Ivan joga a arma para longe.

— Você conhecia Duncan pessoalmente? Trabalhou ou trabalha para ele? Julgando o número de furos no peito do CEO, eu diria que você estava com muita raiva.

— Não, não, eu nunca trabalhei para ele, nunca tive nada relacionado a Duncan, eu sou apenas um tecnólogo, eu não fiz nada!

Ivan tremia enquanto olhava ao redor, não parecia reconhecer o local, mas isso não o impediu de continuar falando.

— Dias atrás, uma pessoa me telefonou, disse que tinha uma proposta de emprego interessante — ele falava desesperado, com o choro na garganta — então eu fui até o local, era em um bar perto da Praça Vermelha de Moscou. Eu não lembro o que aconteceu depois disso e acordei aqui, com você me estapeando.

Ele termina, desesperado.

— Eu juro, senhor, eu não fiz nada, eu nem tenho histórico de passagem pela polícia!

O escaneamento que havia iniciado estava quase pronto, seu corpo possuía alguns implantes nas solas do pé, braço direito e no cérebro. Enquanto o rapaz falava, em poucos segundos percebi que ele estava falando a verdade.

Olhava Ivan diretamente nos olhos, a janela pela qual nada me escapava. Conseguia ver tudo, seus medos, anseios, sonhos e verdades.

O rapaz não mentiu em uma palavra que lhe foi dita, o desespero era real e ele parecia estar passando por sérios problemas. Devido à gravidade da situação naquele palco, agora sabia por que havia sigo designado para o local.

— Senhor Ivan, apesar de acreditar no senhor, ainda assim, você é o suspeito mais plausível no momento, então terei que pedir que venha sem resistir. Você não será ferido, a menos que me dê razão para isso.

Aproveitei o momento, precisava de Ivan do meu lado.

— Mas preciso de um outro favor: uma lista de implantes aos quais você já adquiriu. Preciso checar uma coisa e depois fazer um escaneamento completo, pode ser?

Incerto e ainda desnorteado, Ivan olha diretamente pra mim, era palpável a dor em seu olhar.

— Acho que não tenho opção, né? Pois bem… — confirmou Ivan.


Dois dias haviam passado desde o incidente com Duncan no palco. Leonardo havia voltado para o seu corpo e Duncan estava escondido em sua empresa, o lugar mais seguro que ele poderia estar.

Os resultados dos implantes de Ivan chegaram. Ele ainda estava sob custódia, porém, minha teoria se provou verdadeira. E para provar meu ponto, fui até a delegacia.

A cidade de Moscou se mantinha em eterna penumbra, o vapor abafava tudo. Em meio às névoas, as luzes de néon piscavam nos letreiros e bares da cidade.

Já era anoitecia novamente.

A semana de tecnologia e inovação havia sido cancelada até as segundas ordens. Os hotéis estavam abarrotados de visitantes e o turismo estava fluindo muito bem, apesar dos pesares.

Enquanto me locomovia, transpassei por diversos prédios de algumas corporações. Não havia passarelas na cidade e a vida seguia despreocupada apesar do noticiário só se falar do atentado recente. A cidade era bem preservada, arborizada e limpa. A delegacia estava logo à frente, no final da rua, em meio a fina neblina era possível ver as janelas do departamento, em um estilo brutalista minimalista.

Antigas construções que guardam segredos nunca vistos desde a Segunda Guerra rodeavam aqueles quarteirões. Apesar de a tecnologia a vapor ser o grande diferencial e facilitador da vida dos russos, é uma forma muito cara de sobrevivência, o que fazia com que a infraestrutura fosse questionada a todo o momento. Por isso a arquitetura da cidade se manteve a mesma. Era bonito ver os prédios e casas adornados com entalhes e estátuas antigas enfeitadas com luzes de néon e uma névoa daqueles filmes Noir.

Caminhei da entrada até a sala de interrogatório para conversar uma última vez com Ivan.

Aguardei na sala por cerca de vinte minutos até darem sinal de vida. Olhei relógio no smartphone, havia algumas mensagens esquecidas e já era 20h. Mas do lado de fora ainda era dia.

Ivan atravessou a porta, abatido, e visivelmente cansado. Ele largou seu peso na cadeira a minha frente, do outro lado da mesa.

— Sinto muito ter demorado, Ivan, seus exames chegaram, e como eu suspeitava: você fez parte do desenvolvimento da tecnologia neural de Duncan? Correto? Você tem um compartimento para um chip de personalidade.

Ivan estava em silêncio, mas assentiu com a cabeça. Cansado demais para elaborar qualquer outro tipo de resposta.

— Em um depoimento seu antigo dado para a Esvh, você comentou que consentia com o contrato, porém não sabia o que era exatamente, não é?

Ele assentiu mais uma vez, os olhos em lágrimas, parecia que já havia entendido o que aconteceu.

Prossegui.

— Então você não sabia que tinha este compartimento em seu cérebro, o que nos leva a crer que, nesses últimos dias, alguém possivelmente tomou posse de seu chip inserindo alguma outra personalidade nele.

— É o que imagino, Luvisc, problema é, nada disso foi acordado no contrato, alguém deve ter feito isso por debaixo dos panos. Esvh nunca me tratou injustamente.

Ele olhou para meus olhos, havia súplica ali, ele sentia que era culpado, mesmo não tomando a ação voluntariamente.

— Eu não estava lúcido, é verdade. Talvez tenha sido da forma que você falou — Ivan fez uma pausa — talvez alguém tenha tomado conta do meu corpo e feito isso.

— Você chegou a ouvir o nome da pessoa, ver quem era o contratante? — perguntou Albert.

— Eu me lembro do nome, vagamente. Era Mikhail, Mikhail alguma coisa. Me desculpe, não vou lembrar do sobrenome.

— Acho que é mais do que o suficiente — afirmei — pode ficar tranquilo, vou repassar ao departamento e até o fim do dia verá a liberdade novamente. — respirei pesadamente — você se lembra de algo mais?

Ele fez que não com a cabeça.

— Não há memórias por assim dizer, mas é como se meu corpo lembrasse da sensação, me sinto péssimo. Não ando dormindo e simplesmente tudo parece errado.

Um silêncio pesou na sala, se apresentando como um velho amigo.

Ajustei meu peso e apoiei os braços na mesa, olhando diretamente para ele.

— Vejo que é um bom homem, Ivan. Não consigo imaginar pelo que esteja passando, mas posso ver claramente que vem te dilacerando por dentro. — eu o observo com atenção — não importa o que sinta. No final do dia, tudo se resolveu, poderia ter sido muito pior, por sorte, conseguimos informações valiosas. Vá em paz.

Ele se relaxa na cadeira, finalmente.

— Muito obrigado, detetive. Boa sorte com sua investigação.

Me levantei logo depois de cumprimentar Ivan e sai. Voltei para minha base de operações, também conhecido como meu apartamento. Investiguei mais a fundo e acionei alguns contatos dormentes dentro da Esvh, guardas e faxineiros estão sempre atentos ao que anda acontecendo. E nessa linha de trabalho, apesar de conseguir enxergar os sentimentos dos outros, não consigo observar à todos.

Não demorou muito para me informarem que um Mikhail Tyurin trabalhava lá como supervisor geral do projeto HEAVEN.

Aparentemente ele foi contratado por Duncan para supervisionar a estabilidade e a conexão entre o chip e a mente. Com esse nível de acesso, com certeza seria fácil realizar uma investigação paralela e alterar algumas funcionalidades quando necessário. Infelizmente Ivan foi a cobaia.

Dei dois soquinhos na mesa, animado.

— Esse é nosso cara. Tenho que ser rápido

Apertei o passo até o veículo. O veículo me escaneava enquanto aproximava, ao piscar em azul a porta deslizou para cima lentamente revelando seu interior.

Sem pensar duas vezes sabia para onde ir, e quem buscava.

Era hora de acabar com isso.


Durante o caminho havia solicitado que uma outra viatura me encontrasse no local, e mais três guardas me acompanharam pelos corredores da gigante Esvh.

O local era chique, corredores perfumados, cheios de cores e artes. Salas de pesquisa em abundância com apetrechos que iam além da compreensão humana. Enquanto passava pelos corredores e salas que mais pareciam labirintos, as pessoas o encaravam com medo.

Olhares curiosos nos seguiam e cochichos reverberar pelos corredores. Passamos por diversos setores com salas bem grandes, desde testes de personalidade até estudos de terapia do som. Conosco havia um acompanhante, meio desajustado, mas completamente camuflado naquele ambiente.

Quase não o ouvi quando ele falou.

— Por aqui. A sala de Mikhail é logo ali na frente.

— Certo — afirmei

O acompanhante bate na porta.

Ninguém responde.

Algo não está certo.

— Se afaste — diz um dos guardas para o acompanhante.

Faço um sinal com a cabeça para se prepararem para entrar. Os guardas sacam as armas, e eu puxo uma pistola do coldre.

Aceno com a cabeça para que abram a porta.

Após o acompanhante inserir uma senha, o vidro esfumaçado desliza.

Uma luz invade nossa retina.

Entrando no recinto, as luzes apagadas são rapidamente ativadas pelo sensor de movimento holográfico, demora alguns segundos até todas acenderem, com monitores e projetores sendo inicializados.

Vejo na minha frente algo estranho, duas silhuetas, aparentemente idênticas.

Dois homens, do mesmo tamanho, vestindo roupas brancas e jalecos refinados bordados. Cabelos curtos, óculos. Havia um crachá em cada um deles com o nome “Mikhail T.”. Estavam visivelmente cansados. Percebi que o recinto estava cheio e bagunçado.

Estavam brigando e claramente isso é uma armadilha.

Mas quem será o verdadeiro?

— Certo, eu vou entrar nesse joguinho. — Abaixei a arma e fiz sinal para que os guardas cercaram a sala.

Voltei minha atenção para eles.

— Vamos lá então, Mikhail, daqui você não irá sair, pode me explicar o que está acontecendo?

— Ele é um impostor! — A primeira figura aponta para seu gêmeo.

Ele continua.

— É filho de Duncan, Andrei Istval. Ele ficou bravo com o pai por tê-lo expulsado do projeto HEAVEN.. Ele está se passando por mim para poder ganhar acesso aos chips de personalidade!

— Ah, é claro! Ouça, esse imbecil aqui do meu lado está tentando te confundir, detetive. Ele quem é Andrei Istval, e está tentando fazer com que me mate para poder assumir meu lugar.

Não seria a primeira vez que enfrentaria algo assim, é quase minha especialidade, além disso, eu amo esses joguetes.

Mas precisava de tempo, era necessário observar os detalhes e conectar emocionalmente para poder discernir quem é quem, por mais parecida que seja a personalidade, ninguém escapa de um Observador.

O único infortúnio para eles, é que eles não sabem que sou.

Vamos ver se consigo ganhar a vantagem.

— Quem era o homem que estava na demonstração de Duncan no teatro dias atrás?

— Pf, essa é fácil — vociferou um deles mais agressivo — Leonardo Nusman. Ele era a cobaia e estávamos esperando muito.

— Lógico que eu sabia quem era Leonardo Nusman, o bibliotecário. Teve problema nos rins, morreu por falência renal. Que pergunta agente….

Aproveitei o momento para analisar o rosto de cada um. Não podia confiar em ninguem, se qualquer pessoa aqui tivesse alguma desavença, poderiam me apontar a pessoa errada.

Ambos estavam tensos, logo em seguida, medo da morte.

Fiz uma pergunta óbvia, mas não inútil, que tal…

— Quem é Ivan Serguei? — Olhei fixamente para ambos.

Os guardas ao redor da sala já se prontificaram por detrás das bancadas, apenas esperando o momento correto.

— De quem você está falando? Não conheço nenhum Ivan. Esse pirralho colocou um compartimento de personalidade nesse cara também? — olhou para o Mikhail da esquerda.

— Quem é Ivan? Ele é o responsável por tudo isso? — olhou rapidamente para o outro Mikhail à sua direita.

Observei atentamente aos olhos do Mikhail que se encontrava na esquerda enquanto ele respondia por último.

A brecha, encontrei. Seus olhos se entregaram à confissão, mesmo que sua voz fosse firme e calma.

Há uma incerteza em seu olhar, que de fato revelaram não saber quem era Ivan.

Fiz um sinal para o guarda da direita. Apontei a arma para um extintor de incêndio atrás do Mikhail, que no reflexo se jogou no chão. O estampido ecoou pela sala.

Todos se abaixaram e o guarda pulou com tudo no Mikhail traidor.

— Como? Como soube? — ele gritava enquanto o guarda o algemava.

— Sim, fui eu. Eu matei meu pai, eu coloquei um chip de personalidade em Ivan, eu só queria que meu pai entendesse a importância da minha descoberta. MINHA! — esbravejou.

O rosto do garoto se contorce em mágoa.

Olhei em reprovação para ambos.

— Pelo visto o filho de Duncan estava se passando por você, Mikhail. Como isso aconteceu?

— Sendo filho, tem muitos privilégios aqui, eu sempre dizia para Duncan que o garoto era podre, mas ele insistiu em tentar ajustar o garoto… agora, é tarde demais.

— Entendo perfeitamente. Levem o garoto, acredito que ele não será mais um problema. Informe Duncan, ele irá testemunhar na delegacia novamente.

Me viro acenando para o pessoal que tudo está sob controle. Aceno em despedida para Mikhail

Antes de partir, ele põem a mão no meu ombro, com um rosto conflituoso e incerto.

— Apenas uma coisa. Sobre essa tecnologia, o que você acha de tudo isso, agente? Você acha que isso mudaria o mundo?

Ao observá-lo, fico um longo minuto encarando a face exausta do cientista. Duncan tem boas intenções, mas por trás disso tudo, havia o egoísmo, ambição e poder.

Deixei um sorriso escapar, virei de costas para encontrar o CEO logo na porta.

Respondi a pergunta de forma alta e clara.

— Não sei, senhor, acho que talvez só o tempo dirá. Eu sou apenas um Observador.